Uma parte de mim não consegue entender. Uma parte de mim quer acreditar que tudo vai dar certo, mas não vai. Não vai dar certo porque se eu for para um lado, me magôo, se for para o outro lado, magôo pessoas queridas; se eu apenas continuar seguindo em frente, não sei onde chego, mas sei que chego faltando algumas partes, cheia de cicatrizes e machucados.
Não entendo mais o que esperam de mim. Queriam que eu fosse uma boa aluna quando criança. Eu fui. Queriam que eu fosse uma boa mãe depois de adulta. Eu sou. Queriam que eu arrumasse um namorado sério, que eu ficasse num trabalho mais que alguns meses, que eu parasse de beber e de sair tanto a noite. Eu fiz tudo que eles queriam. Eu faço. Mas e então?
Qual o direito que algum deles têm de discordar da minha maneira de ver a vida? Qual o direito de me dizer que estou errada, de acabar com tudo em que acredito? Quem disse que algum deles podia me fazer ver o mundo com os olhos deles – aqueles olhos cheios de descrença, falta de amor e sonhos destruídos?
As lágrimas caem dos meus olhos e meu coração se despedaça. Tenho vontade de correr até não conseguir mais ver nenhum deles, nenhum sinal de que eles existiram. Tenho vontade de deixar minha vontade me levar e acabar de uma vez com todo sofrimento desse corpo tão jovem. Tenho vontade de entender tudo que acontece ao meu redor. Mas é impossível.
Tudo chegou num ponto em que eu não sei mais o que é certo, o que é errado, o que é esperado. Eu queria saber. Eu queria, pelo menos, poder escolher se quero ser mais um bichinho andando junto com a manada. Talvez eu queira andar com a manada. Talvez eu até possa gostar disso. Mas eu quero escolher.
Eu não quero desistir de mim. Eu não quero desistir de você. Eu não quero desistir do que ele vai se tornar. Eu não quero desistir de nenhum deles. Mas será que ainda há alma suficiente dentro desse corpo?
