Marina estava parada em frente ao espelho, nua, os olhos cheios de lágrimas. Há quanto tempo não conseguia se olhar?
O corpo ainda era o mesmo, o mesmo rosto, mas por dentro não era mais aquela Marina que conseguia sonhar e sentir.
Há tanto tempo aquelas marcas formavam desenhos por todo seu corpo e também desenhavam formas em sua cabeça, formas estranhas, pontiagudas, cheias de farpas e faces cortantes.
Ela se olhava, tocava cada uma daquelas lembranças, quando fechava os olhos podia ver tudo acontecendo de novo, a dor era a mesma, não tinha amenizado. Abria os olhos e se via ali, nua, de frente para o espelho, a mesma cara, mas com o interior cheio de tecidos apodrecendo.
Era questão de tempo para que tudo acabasse. Encostou as mãos em suas costelas, podia sentir todos os ossos, podia ver o contorno de seu esqueleto e não precisava se esforçar para isso. Dias e dias sem comer direito, sem dormir, sem vontade de abrir a cortina e ver luz. Era melhor dormir, afinal nos sonhos as coisas são como a gente quer.
Marina queria ser leve, poder voar, mandar a dor embora junto com o sangue que escorria com a água gelada da pia. Pensava em dias felizes, com amigos, talvez um namorado, motivos para sorrir e vontade de dançar, mas ao abrir os olhos só restava ali o sangue escorrendo pelos canos do prédio.
Tudo acontecendo de novo, mais uma marca estava feita. Mais uma prova de toda existência. Mais uma tentativa de encontrar algo bom em si mesma. Mais uma vez a dor fingindo que ia embora e se empregnando ainda mais em Marina. Mais um prova de que estava desistindo.
Desistindo de si mesma e de todos os sonhos que um dia fizeram parte dela. E por quê? Qual o motivo real de tudo isso? Marina sabia que não era por não ser bonita o suficiente, talvez ela até o fosse, mas precisava se permitir, não era por ter perdido o cara que ela tinha lutado tanto para conquistar, era só conquista, era brincadeira, banalidade. Marina sabia que o motivo verdadeiro estava lá dentro, bem dentro dela, no mais fundo possível, e era difícil demais deixá-lo sair.
O sangue ainda escorria, a água não estava mais tão gelada, o corpo dela não era mais nítido no espelho. Ela se olhou com raiva, estava cansada de sempre desistir de tudo, puro medo, pura preguiça, falta de amor, não só dela consigo mesma, mas falta de amor em tudo, em todos e sempre. Marina queria entender porque sempre desistia, porque sempre fugia, estava lá dentro.
Ela começou a cavocar, a dor quase não existia mais, ela tinha que achar onde estava escondida aquela droga de motivo. O sangue escorreu mais, era fundo agora, será que está ali? As pernas foram amolecendo, os joelhos já não respondiam, Marina sentou-se. Agora o sangue estava no chão, estava em suas pernas, por todos os lados em que olhava. Deitou.
Sentia agora o motivo daquilo tudo. Marina queria sentir demais e sentir nunca foi o suficiente. Tinha que ser físico, tinha que deixar marcas, tinha que mudar o que ela era. E agora mudou. Marina olhou para o teto, fixou os olhos na lâmpada. E sentiu.


2 Comentários
Março 26, 2007 em 12:31 pm
.. “tem que ser sofrido para valer a pena ?!”..
Março 27, 2007 em 1:54 am
parece que cada dia mais a gente tá tão saturado de imagens, sons, cores, sensações, que precisamos ir cada vez mais fundo e mais longe pra que alguma coisa realmente nos toque, de alguma forma.
curti ;)
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