Março 15, 2007...11:16 am

A parte de cima

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Mesmo pequena, sentia-se grande, sentada no chão via apenas pernas. Pernas e bundas. Só. Não via, nunca, um rosto. Talvez uma mão passeando aqui e ali. Nada além disso. Mas sentia-se grande. Sentia-se parte de tudo aquilo.

Era como se não fosse ela quem pertencia ao mundo, o mundo pertencia à ela. O planeta estava dentro dela, bem na boca do estômago. Ela achava que o estômago é o centro de uma pessoa, é lá que dói quando se está nervoso, é lá que voam pequenos insetos quando se está feliz. No estômago é que o corpo mostra o que está acontecendo e o resto dele só segue a linha de raciocínio. Talvez fosse loucura, mas ela achava que não.

O momento de sua vida dizia que ela tinha que saber, tinha que aprender e apreender. Ela queria viver 30 anos em um. Desejava ter tempo para ler, escrever, assistir, ouvir, discutir…

Ela queria tanto.

E ai resolveu levantar. Viu rostos, peitos, troncos completos. Aquilo não era tão belo como pernas e mãos e bundas e pés. Sentou-se novamente. E decidiu que a vida podia esperar, pelo menos até ela se acostumar com pessoas inteiras. Ela não estava pronta para um mundo inteiro, seu estômago não aguentaria.

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