Março 12, 2007...5:40 pm

Cheiro de criança

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Carolina era criança. E assim como toda criança, era pequena. Talvez ela fosse ainda menor do que as outras crianças, ou talvez eu apenas pense isso porque a comparo hoje a mim.Ela gostava de ir à casa da bisavó. Ah, lá sim as coisas aconteciam. A casa era grande, cheia de quartos, com gigantes de cabelos de folhas no jardim; e aqueles gigantes pareciam tocar o céu. E tinham flores e tinham chás. E tinha aquele chá que corta a mão quando você vai pegar, daí Carolina tinha que levar a tesoura. Sem ponta, igual na escola.

Na casa da Nona, como a chamava por ouvir tanto seu pai o dizendo, tinham coisas bacanas. Carolina sempre dizia que comia salada de alface e polenta com carne moída, era sempre alegre aquela hora, e era sempre meio parecido, a Nona sempre dizia que Carolina não podia comer muito alface, afinal, alface dá sono e ir pra escola com sono não é nada bom.

Desde pequena Carolina ia àquela casa e sabia que seria divertido. Era só atravessar a rua para entrar num mundo mágico. Andar de bicicleta, de skate, correr atrás do irmão, dar risada até doer muito a barriga e ter que segurar para não fazer xixi na calça, aprender a fazer tricô, crochê, ponto cruz e todas aquelas coisas que a Nona fazia durante as tardes.

Carolina cresceu naquela casa e passou ótimos momentos ali; era bom saber que seu mundo mágico nunca acabaria. Deitar no sofá e ver televisão, conversar como se fosse gente grande, fazer coisas que sua mãe nunca permitiria. Isso sim era vida! Estar na casa da Nona era estar no paraíso.

Mas Carolina cresceu. E quando as pessoas crescem, ela não vão mais passar a tarde na casa da Nona. Parece que a gente cresce e fica menos inteligente do que quando era criança. Tudo o que é importante de verdade, o deixa de ser. As coisas se tornam distantes e quando você vê, passou, a vida passou.

Mas todas as noites, antes de pegar no sono, Carolina sente aquele cheiro, ela fecha os olhos e vê a Nona, revive tudo que aconteceu na sua infância. Aquele cheiro…do que era mesmo? Carolina nunca consegue se lembrar, ele tinha ficado lá atrás, há anos e anos, ela só sabe que é um cheiro bom, cheiro de casa da Nona, cheiro de brincar o dia todo, cheiro de vontade de crescer. Mas por que é que o cheiro só vinha antes de dormir? Por que ela não podia sentir-se assim o dia todo?

Parecia que na hora de dormir, a parte dela que ainda era criança, que vivia ainda na casa da Nona, voltava apenas pra dormir, pra levar aquele cheiro e reconfortar Carolina.

Sentindo aquele cheiro ela pensava: “Ah, isso que é vida” e sabia que não podia deixar o tempo apenas passar, ela tinha que viver. E tinha que ser agora.

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