Junho 24, 2009

Muda

Você foi a primeira pessoa que me tirou tudo que tenho. Inclusive as palavras.

Junho 16, 2009

Sete segundos

Eu demorei cinco segundos para me apaixonar po você.
(5 segundos. 5”.)
E mais dois pra te esquecer.
(2 segundos. 2”)
Foi o amor mais verdadeiro
e o fim mais rápido da história.
(5 segundos mais 2 segundos. 5” + 2”)

Junho 6, 2009

Dois em um

Dentro da sensação de ser pequena vem aquela coisa de querer ser grande e rasgar a pele que segura tudo que pode crescer. Sair do corpo parece ser a solução para os tantos dilemas que são jogados contra nossa cara.

A vontade de seguir em frente vem acompanhada da vontade de se retrair e virar um pequena bolinha – ou uma “pokebola” – e dormir durante dias. O medo paralisa e nos deixa com essa cara de criança querendo colo de uma mãe que não está mais ali.

E os sentimentos vão se misturando e tornam tudo ainda mais difícil. Num certo momento você não consegue mais saber quem é e para onde tinha escolhido ir. Esperar nunca é a solução. É bom seguir os instintos, mas nem sempre eles indicam o caminho certo.

O bom, de verdade, seria uma bola de cristal. Mas aí a vida perderia o pouco de graça e mistério que ainda tem. Tá aí, misturou.

Abril 14, 2009

Aquilo que ninguém viveu

Lembra quando seus olhos não conseguiam sair da minha direção e mesmo de longe eu sentia, de alguma forma, que você estava me olhando? Lembra a sensação que isso dava? Os arrepios, frio na barriga. No meio de uma reunião séria a cabeça baixa, apenas para não olhar nos teus olhos e entregar tudo que tinha dentro de mim.

Lembra que no meio da multidão eu ia me afastando e você vinha rápido colocar a mão na minha cintura apenas para que eu soubesse que você estava ali? Eu sempre te procurava com o rabo do olho, sempre querendo saber se podia dar mais alguns passos ou se eu te perderia se fizesse isso.

Lembra das noites em claro conversando, dando risada? As cervejas, os refrigerantes, pessoas avulsas, cigarros acesos. O cheiro de maresia que entrava pelas janelas e deixava a sala muito mais agradável? A tv ligada e esquecida, os silêncios que não nos constrangiam, apenas tornavam o momento um pouco mais poético.

As histórias parecidas, as ideias que batiam, os corações que aceleravam. Os carinhos discretos, o cheiro, o gosto, a vontade. Lembra da saudade, da vontade de abraçar, das ligações falando baixinho como se tudo fosse por água abaixo se o mundo soubesse que existia gente assim feliz?

Lembra daquela onda? O mar tinha ficado bravo por algum motivo que eu nem lembro mais direito e jogou toda aquela água sobre nós. Nem era verão, estava frio e a água incomodava. Nossas mãos foram se soltando e então eu não te via mais. Desisti de olhar com o cantinho dos olhos, virei a cabeça, gritei seu nome. Silêncio mortal.

E então você reaparece agora, com esse olhar que não é seu e me olha. Não existe mais cabeça baixa, nem coração batendo acelerado. No meio da multidão eu vejo você, mas nada nos liga, nada nos faz seguir a mesma direção.

Meu coração tenta pular do peito e correr pra você, meu cheiro voa do meu corpo para o seu nariz, quem sabe assim você se lembra… Meu olhos fogem dos seus apenas pra ver se você ainda tenta me buscar. Não é mais você, é apenas alguém ali, alguém que não estava no começo da história.

Março 29, 2009

Tum tum, tum tum

Ela não se sentia pior. Nem melhor. Era apenas mais uma. Outra barata tonta dando cabeçada em portas e pés, fugindo de pisadas mais duras, que podiam acabar com a sua carcaça já machucada demais. Mas não era fácil.

Bastava um momento em que parava para respirar e lá vinha outro choque. Um baque mais forte, que ela não havia esperado. Voltava a correr com o ar se esforçando para lhe dar força. Era tão difícil.

Naquela noite a pisada tinha ido um pouco mais fundo. Sentiu uma parte de si quebrando. Algo que ela não entendia o que era, porque até então não sabia que existia uma coisa estranha daquelas dentro de si. Era mole, quente.

A sensação não foi ruim. Quebrou, mas relaxou. Fez ter vontade de sorrir e andar um pouco mais devagar, quem sabe aceitar a companhia de outra barata tão tonta quanto ela. Uma nova barata com histórias diferentes e talvez iguais. Existia outra assim?

“Quero isso todos os dias”. Ela preferiu correr mais uma vez, afinal, sem saber o que era aquela coisa mole e quente – que agora pulsava ritmadamente – era melhor se proteger. Ninguém sabia o fim daquilo. Mas ela sabia que era hora de voltar para o esconderijo secreto embaixo da terra. Lá, pelo menos, nada se chocaria contra ela e amoleceria sua carcaça já tão machucada.

Março 26, 2009

O que ninguém nunca disse

Ela sempre escrevia. Sempre escreveu em todos os momentos, mas para ele, nunca. Para todos escrevia no fim, nos últimos momentos, nos suspiros finais, quando sabia que a morte estava próxima, mas para ele teria de ser diferente.

Ele era o recorde dela. Ela, o dele. Nunca ninguém a tinha entendido tão bem, aceitado seus jeitos, suas manias, loucuras sem limite… Apenas ele. E ela nunca havia dito. Ele precisava saber em vida.

Mas como dizer que ela é apaixonada por ele cantando? Ou quão bonito é o momento em que os corpos dos dois estão juntos, duas cores, dois tons, duas almas? Seria estúpido tentar explicar a mágica dele tentando entender suas teorias enquanto ela fala bêbada alguma ideia maluca…

É só ele que joga na cara dela os defeitos, é só ele que fica puto porque ela dorme no meio de uma conversa, alcoolizada, cansada. Ele é o único que não mede as palavras, ele diz tudo, de uma forma tão dele, que nem chega a machucar, apenas coloca de volta no caminho.

Ela queria muito que ele soubesse a falta que faz nos dias frios, com seu abraço quente. E nos dias quentes, deitado distante, apenas com a mão nas costas dela. O barulho da TV enquanto ela dorme e ele assiste. Os passos leves no quarto para que ela não acorde. Os carinhos, a forma de acordá-la, os apelidos de criança… Como dizer tudo isso?

Toda a força que ela dá a ela – mesmo sem saber -, todo o apoio, o empenho. Como demonstrar que cada pequeno pedaço dele está total e diretamente ligado à ela? Seria impossível deixar claro que apenas o ato dele abrir mão da carona pra ela poder dormir umas horas a mais é prova de amor!

Ela pensou, tentou, escreveu, desenhou, pintou. Mas não dava. Era coisa demais, sentimento demais, calor, carinho, amizade… Era tudo, e não era possível traduzir. O espaço era pequeno demais pra tanto. Então ela não disse. Mas ele sabia que.

Março 10, 2009

Em um segundo

Eu te odeio. E odeio tudo o que você representa e o que me faz sentir. Odeio o seu jeito de se importar e fazer de conta que se importa de verdade. Odeio sua falta de respostas, suas saídas, suas fugas inesperadas.

Nada disso devia acontecer a partir do momento em que eu decidi que não aconteceria. Quem é você? Quem você pensa que é para tomar um lugar tão importante na minha vida atribulada? Esse lugar não é seu, é um lugar de gente que merece, que não me faz ter esses sentimentos, que não me deixa enlouquecida de um lado para o outro.

Em que momento você achou que podia entrar na minha vida dessa maneira e me enlouquecer? Quem foi que disse que eu tinha escolhido você à mim? À minha paz?

Não quero mais seus sorrisos, seus recados, saber de suas vontades, aspirações. Não quero mais nada que me lembre você. Pelo menos por hoje. Eu voltei, mas voltei pra ganhar e não para passar por tudo outra vez. Não quero mais.

Faz tempo que não sou criança, mas você me torna insegura, desesperada, insatisfeita. Cansei de você. Pelo menos por hoje, me deixa só. Me deixa lembrar de como era bom sem você na minha vida. Pelo menos por hoje.

Pelo menos por um instante, me deixa ganhar o jogo que eu criei pra mim, me deixa respirar aliviada e dormir bem. Pelo menos por hoje, me deixa.

Março 8, 2009

Pombagira

Salto alto e minissaia. Make brilhando e cabelo arrumado. Ela dança até o chão, é segura e sexy. Troca olhares contigo. E com o outro. E mais um. Sorri como se não fosse nada, empresta um pouco do seu mundo. Ela toma do seu drink, te empresta um isqueiro, fuma do seu cigarro. Não te toca em nenhum momento, apenas chega um pouco perto enquanto dança. E vai embora.

Ela sabe como chamar sua atenção sem mesmo olhar pra você. Dança com as amigas e dá risadas. Joga o cabelo para trás, mostra a nuca esperando por vento. Deixa o suor escorrer pelo rosto, pelas costas e pernas. Não se importa. Movimenta-se por causa da música, não pára um segundo, de um lado para o outro, como se não percebesse que está sendo observada.

Até o último acorde da última música, até que as luzes se acendam, ela te olha nos olhos sem nenhum medo de se mostrar. Dá um sorriso de lado. Mas as luzes acendem e ela não é mais quem você acreditava. Ela baixa os olhos, foge do seu olhar. Não há mais sorrisos gratuitos, o sol apagou tudo.

Ela tira o salto alto e pisa reto no chão, os pés doem. A minissaia não é mais tão curta e o decote nem faz mais diferença. O cabelo desce pelas costas e esconde aquela parte do corpo que você cobiçou a noite toda. Ela não é mais sua. Ela é a minha menina.

Minha menina não quer saber de sorrisos, quer apenas um canto, silêncio, água com gás. Não quer barulho nem ser o centro das atenções. Apenas quer estar ali. Ninguém dança ao seu redor, ninguém fala seu nome em voz alta, ninguém bate palmas para sua performance. Ela é a minha menina.

Todo o sexo que ela parecia querer durante a noite foi embora no primeiro sinal de claridade. Ela foge do monstro dentro de si, o prende por mais uma semana, até que a próxima noite caia e deixe que a fera saia para passear. Mas não encoste nela, mesmo durante a noite, dependendo do toque, ela pode voltar a ser apenas a minha menina, baixar o olhar e desaparecer do caminho.

Fevereiro 26, 2009

Linha da vida

Rostos atentos, olhares movimentando-se mais rápido do que jamais foi possível, mãos trêmulas. Garotas. Linhas brancas sobre o velho safado e notas entre os dedos. Elas estavam preparadas para tudo o que pudesse acontecer. 

Segura a porta com o pé, olha uma para as outras, sente o cheiro de mais um dia de problema vitorioso. É só mais uma noite, só mais um velho safado, só mais uma vez em que respirar profundamente é obrigatório para seguir em frente.

A noite passa como um daqueles carros em alta velocidade de filme de Hollywood, só uma marca borrada na paisagem. E então uma mão grande encosta em seu pescoço e ela agora não é mais três.

É uma e derrete, as pernas bambeiam e a boca saliva por um pouco de emoção. As mãos descem por seu ombro e suas costas, os olhos se cruzam e uma boca quente toca a sua.

Não lembra mais das linhas brancas, do velho safado, das outras duas, de inspirar profundamente, de precisar seguir em frente. Está ali. Quer continuar ali. E o sol que não se atreva a aparecer.

Fecha as cortinas, liga o ar condicionado no mais forte que dá, cerra os olhos e vê apenas formas perto de si. Sente. Tudo a toca, todas as energias mexem com seu corpo, seus movimentos.

Prende a respiração. Sua boca seca, suas mãos tremem, suas pernas não tem mais firmeza. Ela toma coragem e abre os olhos; os vultos desapareceram. Não tem ninguém ali, só uma marca de mão queimando em sua nuca.

Janeiro 5, 2009

Nem sempre

Não me ligue e pergunte como foi meu dia, não queira saber. E tenho meus limites, tenho meus problemas e não consigo deixar que ninguém ultrapasse certa linha.

Eu nem sempre fui assim. Eu já consegui fazer amigos, já consegui conversar com as pessoas sem pensar no momento em que a conversa vai acabar. Um dia eu não fui essa pessoa desconfiada.

Mas, por favor, hoje, não queira ser meu amigo e se importar comigo. Não queira estar ao meu lado pra tudo. Não me apóie.

Eu simplesmente não sei como lidar com isso.